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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

É a minha missão poética, diz Invader sobre intervenções em SP

 Hoje publico reportagem do jornal Folha de São Paulo on line, onde a editora do caderno Ilustrada entrevista o famoso interventor urbano Invader. Não poderia deixar de publicar na íntegra a entrevista. Parabéns para a editora Fernanda Mena que conseguiu bater um papo com o artista. Sabe-se lá quando teremos outro pronunciamento ou visita do cara no Brasil. Confiram a entrevista logo abaixo.

 É a minha missão poética, diz Invader sobre intervenções em SP

FERNANDA MENA
EDITORA DA ILUSTRADA


Na noite de ontem, um avião cruzou os céus de São Paulo levando embora um artista francês que, em 20 dias de visita à capital paulista, deixou um rastro de 50 "invasores do espaço" espalhados pelas ruas da cidade.

O que ele chama de "invasão" é um processo pelo qual já passaram cidades como Londres, Nova York, Tóquio, Melbourne e até Katmandu, no Nepal. São Paulo é a 21ª a ser tomada pelo artista.

O projeto faz parte da exposição "De Dentro e de Fora", que reúne no Masp oito dos mais importantes nomes da chamada "street art" internacional (leia ao lado).

Intervenção do Invader em São Paulo - Divulgação

O processo é sempre o mesmo. Sob o codinome Invader e com uma coleção de azulejos na mala, ele estuda o mapa da cidade, compra cimento na loja de construção mais próxima e espera a noite chegar para cobrir muros e viadutos com mosaicos em forma de "space invaders", personagens do videogame homônimo do final dos anos 70.

"É a minha missão poética", disse à Folha o artista, que não revela o nome real.


Sua obra nasceu na ilegalidade, como a de muitos grafiteiros e artistas de rua. Há menos de dez anos, era caso de polícia. Hoje, ocupa museus e galerias mundo afora.

"Antes, preservava minha identidade porque o que eu fazia era proibido. Perdi a conta de quantas vezes fui preso", lembra.

"Quando minha obra foi reconhecida como arte, mantive o anonimato. Isso acabou se tornando parte do projeto. Até porque sou um cara meio antissocial mesmo; se não fosse, não teria criado tantos invasores por aí", explica ele, que não se deixa fotografar ou filmar sem que esteja mascarado.

VIDEOGAME URBANO
 
A maior de suas intervenções ocorreu em sua Paris natal, cujas ruas hoje abrigam nada menos que mil invasores, todos diferentes entre si.

"Quero surpreender as pessoas e criar alternativas às placas de trânsito e à publicidade. É como um videogame urbano", diz. "Nas ruas, a arte pode chegar a todos, do presidente ao morador de rua. Num museu, não atinge 10% da população local."

Segundo Invader, cada mosaico é uma obra de arte única. "Mas a obra mais interessante é a rede formada pelos invasores do mundo todo em conjunto, como uma escultura sobre o planeta."

Para Baixo Ribeiro, curador da mostra no Masp, Invader criou uma linguagem muito própria, que ampliou o repertório da arte urbana, muitas vezes restrito a grafite e adesivos ("stickers"). "É algo sofisticado e divertido."


VERSÃO VINTAGE
 
Sobre uma mesa improvisada na montagem da mostra no Masp, Invader abre um mapa surrado em que registrou cada ponto "invadido" em São Paulo. Alguns foram eleitos por sua visibilidade. Outros, ao contrário, por serem confidenciosos.

Num caderno de bolso, ele anota endereço e número de azulejos utilizados. Depois, sob a luz do dia, fotografa cada "invasor" como uma sentinela da cidade.
As informações são armazenadas numa base de dados e transformadas em mapa, que é impresso e distribuído.


"Sou totalmente obcecado pelo meu trabalho", diz. E frisa que São Paulo é a primeira cidade da América do Sul "invadida". Aqui, ele descobriu uma nova matéria-prima: cerâmicas vintage de cemitérios de azulejos. "Fiquei fascinado e resolvi trabalhar com azulejos estampados pela primeira vez", diz. "É algo brasileiro, que já esteve na casa de alguém e pode ser reutilizado agora para fazer arte."

Leia abaixo a íntegra da entrevista com o artista.


Folha - Por que "Space Invaders"? O que esses personagens representam?
 
Invader - Foi uma espécie de acidente. Eu era um jovem artista e sabia que era arte o que eu queria fazer. Eu testava vários materiais. E eu passei a me interessar por imagens digitais, formadas por pixels. E comecei a fazer painéis de mosaicos que dialogassem com a estética digital. Um dia eu fiz um Space Invader no meu estúdio e pensei e colocá-lo fora do estúdio. Colei perto do estúdio, num muro. Isso foi em 1996. Dois anos depois, chegando no meu estúdio, caiu a ficha. Eu tinha feito algo interessante: era um "Space Invader", estava lá há dois anos, as cores continuavam boas, ao contrário das pinturas, que se desgastam. Aquilo era uma sentinela e estava invadindo um espaço! Pensei: "Continue com isso! Transforme isso num projeto. Vá invadir espaço!".

Demorou dois anos pra você perceber isso?
 
Sim! Só depois resolvi invadir Paris. Mas em seguida percebi também que não queria que isso fosse um projeto francês, mas global. Então, já em 1999 eu comecei a invadir Londres, que estava menos de três horas de trem de Paris. Fui para Tóquio participar de uma exposição e invadi Tóquio. Fui para Nova York e invadi Nova York. Vim para São Paulo e invadi São Paulo. Desde 1998, minha vida é essa: viajo pelo mundo para fazer exposições e invado as cidades.

Qual é a sensação de "invadir" uma cidade?
 
Sabe o filme "Clube da Luta"? Parece que estou num sonho, como no filme. Eu viajo muito e me sinto como um invasor: me programo, compro os materiais, escolho os locais e saio durante as madrugadas para invadir a cidade. Fiquei 20 dias em São Paulo, que é o tempo mínimo necessário para fazer uma invasão, e foi uma imersão total num videogame. É engraçado, mas minha vida é sair de madrugadas e colar peças ilegalmente nos muros. E de repente eu me pego às 5h da manhã, em Katmandu, e os cachorros estão latindo ao meu lado, e há macacos perto de mim e eu penso: "Mas o que diabos eu estou fazendo?". E isso é o que é mais belo de ser um artista. É como realizar um sonho subversivo. Você dá novos sentidos para a vida. Essa é minha missão poética.

Qual é o papel do mistério e da surpresa no seu trabalho?
 
É extremamente importante. Minha ideia é surpreender as pessoas e apontar uma alternativa aos sinais e placas de trânsito e à publicidade nas ruas. É um jogo com a população. O mais interessante da street art é que você pode tocar toda e qualquer pessoa. Se você colocar uma obra num museu, talvez tenha sorte se 10% da população da cidade a veja. Quando você cria uma obra nas ruas, pode ser visto pelo presidente e pelo morador de rua. E, para ser um bom artista de rua, é preciso surpreender as pessoas.


E o mistério em torno da sua identidade?
 
Primeiro eu preservava minha identidade porque o que eu fazia era ilegal. Depois eu comecei ter minha obra reconhecida como arte, e resolvi manter o anonimato. Foi algo que aprendi na cultura do grafite. Todos têm codinomes. Acho interessante a ideia de as pessoas imaginarem que posso ser uma mulher, alto ou baixo, gordo ou magro. É engraçado deixar as pessoas imaginando como você é. E isso acabou se tornando parte do projeto. Me sinto como um super-herói, que ninguém conhece a verdadeira identidade, mas sabem que ele existe. Além do que eu gosto de ir a festas e ninguém saber quem eu sou, o que me poupa de várias conversas e comentários aborrecidos sobre o meu trabalho. Sou um cara meio anti-social. Se colei tantos "Space Invaders" é porque não estive em tantas festas por aí. Vejo as pessoas bebendo de madrugada pelas ruas, e eu estou lá, tocando meu projeto de dominação do mundo [risos]. É um projeto sem fim. Toda vez que conheço uma nova pessoa, vem a pergunta: "Você colocou algum na minha cidade, em Praga?" E eu fico desapontado: "Puxa, preciso colocar um em Praga!!!". Acho que vou fazer isso pelo resto da minha vida.

É uma obsessão
 
Totalmente! Eu sou totalmente obcecado pelo meu trabalho. Quando você faz algo assim, se torna um tanto paranoico porque está fazendo algo em geral proibido. É o DNA do projeto. Quando você é um artista de rua, você tem que se envolver muito no seu trabalho porque a rua não é como um estúdio.

Como você escolhe onde colocar um "Space Invader"?
 
O material é pesado para carregar. A matéria-prima é preciosa pra mim, os azulejos. E a quantidade que posso fazer é limitada por isso. É como uma acupuntura urbana. Eu tenho alguns critérios. Visibilidade, quanto mais gente puder vê-lo, melhor. Por outro lado, confidencialidade pode ser também um critério: um "Space Invader" escondido em algum lugar para alguém descobrir. O critério fotogênico é importante, porque todas as peças que eu faço são fotografadas em close e à distância no dia seguinte. E todas elas são diferentes. Ando com um caderninho no bolso onde anoto exatamente onde as coloquei e depois passo todas essas informações mais as fotos para uma grande base de dados que tenho em casa. E cada uma delas é uma obra de arte, mas a obra de arte é toda a rede de "Space Invaders" do mundo em conjunto, como uma escultura sobre o planeta.


Quantas vezes você já foi preso?
 
Muitas vezes. Muitas mesmo. Mas nunca entrei numa encrenca maior. Sempre admito que o policial está fazendo o trabalho dele e que meu trabalho também é aquele. Como artista, ele até pode me prender hoje, mas vou voltar amanhã. Normalmente, funciona. Teve vezes em que passei algumas noites na prisão, mas foi interessante. Gostaria de ter feito um "Space Invader" lá.

Como você vê essa mudança na percepção da arte urbana, de vandalismo à consagração em museus e galerias?
 
A arte urbana passou de uma cena underground para mainstream. E eu não sou o tipo de cara que gosta de mainstream. Sou muito mais uma banda de punk obscura do que o último disco da Madonna. Ao mesmo tempo, quando algo é interessante e se torna mainstream por conta disso, é algo bom.


Isso o incomoda?
 
Sim e não. Não porque isso permitiu que meu trabalho fosse reconhecido e que eu pudesse viajar para muitas cidades e invadi-las, continuando meu projeto. Não posso reclamar disso. Especialmente porque durante anos a vida foi difícil para mim. Eu não tinha trabalho e era obcecado pelo projeto artístico. Vivia abaixo da linha de pobreza, eu diria. Ainda bem que eu tinha amigos. Hoje, isso não é um fantasma. Mas eu acho que a mudança das ruas para as galerias, pode ser perigosa para a arte urbana, mas pode ser interessante. É o nosso trabalho fazê-lo ser interessante. Nas mostras, tento fazer algo também surpreendente e, ao mesmo tempo, diferente do que faço nas ruas.


O que você já criou de diferente do que faz nas ruas?
 
Em 2005 eu comecei uma nova série chamada RubikCubism, que são quadros feitos com cubos mágicos, formando desenhos de capas de discos de que gosto. Também criei uma máquina de fazer waffles em formato de "Space Invader". Precisei da ajuda de um engenheiro. Não foi fácil. Mas foi muito legal. Na exposição que fiz em Paris em comemoração ao milésimo "Space Invader" da cidade, as pessoas podiam comer waffles de "Space Invaders". Foi bem engraçado.

Como foi seu trabalho em São Paulo?
 
Eu estou muito muito feliz de estar aqui. Primeiro, é um destino muito importante para mim porque é a primeira cidade da América do Sul na qual faço minha "invasão". A América do Sul era o último continente, a última fronteira. Eu esperava por isso há muito tempo. Além disso, gostei demais das pixações. Eles têm um estilo muito próprio. É impressionante. É como um safari urbano. Adorei andar por São Paulo por causa disso. Eu não gostava da cultura norte-americana de grafite com letras em forma de bolha. E o que existe em São Paulo foi a transformação daquela influência em algo totalmente autêntico. Mais do que tudo, estou muito entusiasmado porque é a primeira vez que uso azulejos com estampas e padrões. Quando cheguei aqui, me levaram ao que vocês chamam de cemitério de azulejo e fiquei encantado. É muito brasileiro e muito diferente do que eu faço normalmente. E todos eles são usados, veja só [vira um azulejo e mostra o verso]. Eles estiveram na casa de uma pessoa. Pode até ser que eles estivessem no banheiro da sua avó! (risos) Mas como eles estão sendo reutilizados agora por mim para fazer arte, pode ser que alguém os retire de novo dos muros da cidade e, quando eu voltar, vou comprar eles de novo como se fossem uma novidade.

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